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Todos nós temos cartas de amor no bolso, esperam que sejam abertas, lidas e relidas, esperam os olhos que passem e perpassem pelas palavras que temos para dar, aguardam os dedos em fúria para que o lacre seja quebrado. Todos nós, temos momentos de prazer alucinados e gritos de alerta, todos nós amamos e escrevemos, não é preciso ser poeta para falar ao coração, é necessário apenas estar vivo e tropeçar no amor e na paixão. Trago por vezes comigo algumas folhas de papel claro, tingido pelo desgaste do tempo, as palavras ficaram marcadas nas dobras das páginas, a tinta parece colar-se contra as páginas, formando desenhos abstractos, o papel adoptou um cheiro envolvente, como que antigo, uma aparência que mistura o odor da roupa com a fragrância da tinta de aparo, juntamente com o papel e umas quantas lágrimas de alegria ou tristeza, diria antes saudade. Todos nós trazemos connosco páginas, tantas, de amor, ódio ou paixão latente. Serão elas entregues aos destinatários? Ou ficarão esque...
Após várias reflexões sobre este assunto acabo por chegar à conclusão de que o poeta não pertence a ele próprio, pertence a algo divino, ao mundo e principalmente às gerações seguintes. Para além disso é a voz do povo, o que não se diz em voz alta ele escreve e grita para o mundo da forma mais brutal e doce que possa existir. E por incrível que pareça todo o mundo o compreende da forma que ele o escreveu. 24, Maio de 2006 Guilherme Ribeiro
Consumindo o que era dela foi-se um ultimo cigarro, vista ao longe parecia uma pobre mulher, velha, as mãos rugosas e ásperas. No cinzeiro infecto despojava já as cinzas apagadas pela memória do tempo. A companheira de quarto deslocava-se numa cadeira de rodas lentamente, tinha uns oitenta anos pelo menos, parecia até que tinha parado no tempo, o tempo esse aliado da saudade. À medida que ia dando a sopa á boca da mulher que estava acamada, surpreendeu-me os olhares indiscretos de tanta solidão...